Com reunião de líderes e desfile militar, China manda mensagem ao Ocidente sobre protagonismo na governança global (2025)

A China anunciou que importantes líderes não-ocidentais, incluindo o presidente russo, Vladimir Putin, o premier indiano, Narendra Modi, e o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, confirmaram presença em eventos políticos e militares que serão sediados por Pequim ao longo da próxima semana. Em meio à instabilidade crescente no cenário político internacional, potencializada por ações unilaterais dos EUA sob administração de Donald Trump, analistas apontam que os compromissos públicos oferecem ao presidente chinês, Xi Jinping, a oportunidade de projetar o país como um peso-pesado diplomático pronto para assumir um papel de protagonismo para além de sua influência econômica.

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A série de compromissos de Xi começa no domingo, com a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), que inclui Índia, Rússia, Paquistão, Irã, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Uzbequistão e Bielorrússia, além de outros 16 países afiliados. O evento político se estende pela segunda-feira. Já na quarta-feira, outros líderes mundiais são esperados para um desfile militar na Praça Tiananmen (ou Praça da Paz Celestial), em comemoração ao fim da Guerra Sino-Japonesa e da Segunda Guerra Mundial. Fontes chinesas afirmaram que o desfile irá apresentar novos equipamentos de fabricação nacional que refletem sua "grande capacidade" para "vencer uma guerra moderna".

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Embora Pequim e Moscou tenham utilizado a OCX como uma forma de aprofundar laços com a Ásia Central — a organização também foi descrita por vezes como um contrapeso à Otan —, o encontro é mais relevante neste momento por representar uma oportunidade de diálogo direto entre líderes políticos (muitos deles representantes de regimes autoritários) do que pela expectativa de qualquer resultados substancial, segundo analistas.

— A OCX funciona por consenso e, quando se reúnem na mesma sala países profundamente divididos em questões fundamentais, como Índia e Paquistão, ou China e Índia, isso naturalmente limita as ambições — disse Lizzi Lee, do Asia Society Policy Institute, em entrevista à agência AFP.

Ainda de acordo com a analista, a falta de uma declaração final não vai ter impacto para as pretensões de Pequim, que apenas com a realização do encontro conquista seus objetivos. Lee aponta que o fato de receber os chefes de Estado e governo permitem ao governo chinês demonstrar "poder de convocação" e reforçar a ideia de que a governança mundial "não está dominada pelo Ocidente".

A visão sobre o tabuleiro internacional foi esboçada por autoridades em Pequim nos últimos dias. Na semana passada, o vice-ministro das Relações Exteriores chinês, Liu Bin, disse que a reunião de cúpula fornecerá estabilidade diante do "hegemonismo e da política de poder", em uma referência velada aos Estados Unidos.

Interesses cruzados

O posicionamento mais abrangente, de se colocar como um parceiro confiável para o mundo em um momento que o presidente americano ataca mesmo países aliados com tarifas econômicas, é apenas parte do objetivo chinês. A presença de Kim e Putin em Pequim, sobretudo, podem guardar um cálculo específico mirando a relação com Washington.

Em conversa com o presidente sul-coreano, Lee Jae-myung, na Casa Branca, Trump se disse ansioso para voltar a se reunir com o líder norte-coreano, com quem se encontrou três vezes durante o primeiro mandato. Em paralelo, o presidente tenta costurar um fim para a guerra na Ucrânia com Putin — até o momento sem sucesso.

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A correspondente da BBC na China, Laura Bicker, apontou em texto publicado nesta quinta-feira, que Xi entende a influência sobre a Coreia do Norte e os canais com a Rússia como um ativo diplomático que o oferece uma posição mais forte em um eventual diálogo com Trump — algo que o presidente americano disse que pode acontecer durante uma viagem à Ásia nos próximos meses.

O encontro também atende a interesses dos líderes que confirmaram presença em Pequim. Putin, por exemplo, deve usar a cúpula para promover sua narrativa sobre a guerra na Ucrânia e sua visão do que seria um "final justo" para o conflito, segundo o professor Dylan Loh, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura.

Para Kim, a rara participação em um fórum multilateral pode ser apontada como uma vitória política. Embora tenha aprofundado relações com a Rússia nos últimos anos, e tenha profundos laços com a China, a ditadura norte-coreana certamente se legitima ao se comunicar com lideranças de outras nações. (Com AFP e NYT)

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